Friday, November 28, 2008

MOJO BOOKS


MOJO BOOKS é uma editora 100% digital. Sua proposta é simples: "Se música fosse literatura, que história contaria?" Com essa pergunta na cabeça, resolvi inscrever um texto meu, no site da Editora.


Para tal, escolhi uma música da Banda IRA!, chamada Envelheço na cidade. E agora, eu gostaria de compartilhar com vocês, uma alegria.


Meu texto foi selecionado pela MOJO BOOKS. E está publicado no site. Gostaria de que, se puderem, dessem uma passada por lá, para ler e votar em meu texto.


Aguardo a visita de vocês, ok?







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Thursday, October 02, 2008

Bem te ouvi, Beija-flor


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Pensava escrever sobre um bem-te-vi. Lembrei-me da foto de alguns dias atrás. Um clic inédito feito por quem estava comigo, naquele dia, celebrando um grande dia. Na foto, o registro era de um beija-flor. E não de um bem-te-vi. Mas desde criança, acho que os bem-te-vis são parentes dos beija-flores... E ambos, pura poesia... Lembrava-me da foto, e da vontade de eternizar, também em palavras, esse pássaro que mais parece uma poesia dançante (o beija-flor) e o que mais parece uma poesia musical (o bem-te-vi).

Os beija-flores, assim como os bem-te-vis devem ter sido criados num momento de extremo lirismo do Divino. O bem-te-vi, num momento em que Deus pensava em espalhar pelo Seu Paraíso, bons presságios e fluidos positivos. “Bem-te-vi” – diria o ser acabado de sair das mãos do Criador. E aos ouvidos de quem por ali estivesse passando, aquilo soaria como uma saudação do próprio Deus. Quer coisa mais linda do que ser saudado por um presente Divino? O som do bem-te-vi, para mim, é algo assim... como o “ estou feliz por tê-la criado”, “estou satisfeito por sua existência”... ou ainda “estou olhando por você”...

Já o beija-flor, penso que foi criado num momento em que Deus ansiava por colorir o céu, mas de forma que não ofuscasse o azul infinito e, sim, enriquecesse aquilo que cobriria o perfeito retrato do mundo. Por isso criou seres leves, quase transparentes como as borboletas. Os beija-flores, se não possuem asas como as de marcas d’água das borboletas, têm as asas a bater tão rapidamente que sua passagem pelo céu é, muitas vezes, imperceptível. Quase como uma estrela cadente. Quando pensamos que os vimos, não há tempo de registrar. São mais rápidos que nosso piscar de olhos. O que dirá de um registro fotográfico.Por isso a importância daquele clic feito por quem estava comigo, naquele dia, celebrando um grande dia...

E hoje, exatamente hoje, pensava eu em eternizar em palavras esse pássaro que mais parece uma poesia dançante (o beija-flor) e o que mais parece uma poesia musical (o bem-te-vi).

E eis que me deparo, há poucos instantes, com a poesia de Cecília Meireles. Escolha seu sonho – anunciava a capa do livro que tenho há uns dois ou três anos (e que já perdi as contas de quantas vezes o li). E numa das páginas, lá estava um registro feito pela poeta: História de bem-te-vi. Uma crônica que tentava registrar os bem-te-vis de seu momento. E nesse registro, a poeta falava sobre as mudanças do cantar e do desaparecimento desses pequenos seres em função do “progresso”... Ao ler sobre os bem-te-vis de Cecília, lembrei-me de "meu" beija-flor...

Cecília eternizava, naquele momento, numa fotografia em palavras, a poesia musical dos bem-te-vis. E eu, com o livro nas mãos, lembrava-me da poesia dançante do beija-flor...

Pois, de repente... do silêncio do meu quarto, ainda com a imagem do meu beija-flor e as palavras de Cecília na minha mente, eis que acabo de ouvir um som de bem-te-vi. Seria loucura dos meus ouvidos? Não sei... Só sei que, aos meus ouvidos, ele apareceu. O fato é que eu o ouvi. E por um instante, a imagem de minha poesia dançante, uniu-se à poesia musical da poeta...

E nesse “ouvir e ver”, não quero pensar em explicações objetivas... prefiro pensar que foi um presente Divino, talvez encomendado pela poeta que, lá de seu momento, ajudou-me, com seu bem-te-vi, a eternizar o meu beija-flor...
Que bom presságio. Hoje eu bem-te-ouvi um beija-flor...

(Adriana Luz – 02 de outubro de 2008)


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Saturday, August 23, 2008

Os seus meus melhores anos...





Poderiam ser dois ...
oito ou quinze...
E me dei conta:
são dezoito...

Mas doze mais seis
Sete mais um...
Dezoito ou cem...
Que relevância tem
se em qualquer tempo,
sentimentos...

Todos iguais.
Em mim... e você também...

Desde o primeiro momento.
Tudo ímpar... e mais além...

Não há como dizer:
te amo a cada dia mais

Todo o amor inteiro
veio com o amor primeiro

Sem eu nem saber
o que tudo o mais (que eu queria)
você seria

O amor já estava ali

Mas acontece que o tudo o mais
veio também...

(E todos os seus anos sempre foram os meus...
melhores anos...)

Por isso ainda estou aqui...

Feliz aniversário! Te amo!

(Adriana Luz – 24 de agosto de 2008)

Wednesday, August 13, 2008

Simples assim...



A idéia era simples:
não ter idéias.
Pronto.
E o descanso infinito
estava instalado.

(Adriana Luz – 13 de agosto de 2008)

Churrasco








Depois de horas e horas debaixo de um sol causticante na estrada, num engarrafamento infernal, o casal conseguiu chegar a uma cidadezinha do interior.

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_ Preciso comer algo, senão tenho um treco – reclamava a mulher, de meia em meia hora.
_ Tenha paciência, meu bem, já está chegando – o marido tentava acalmá-la.
_ Preciso de água também, estou morrendo – choramingava a mulher.
_ Calma, assim que avistar um posto, eu paro...

Avistaram o posto. Não havia água.

_ Como não há água? – escandalizou-se a mulher.
_ Acabou tudo ontem – explicou-lhe o vendedor.
_ Sim, acabou ontem e não providenciaram mais? Que raio de lanchonete é essa?
_ Não é lanchonete, minha senhora, é posto.
_ Sim, mas todo posto vende água.
_ A gente também vende.
_ Então me traga uma garrafa de água.
_ Acabou tudo ontem.

Mulher em pânico.

_ Meu Deus! Vou morrer!
_ Só tem “Fresh” – disse o vendedor.
“Fresh” era o nome da bebida que “funcionava como água”, segundo o vendedor.

Compraram a tal Fresh...

_ Preciso de algo salgado também, minha pressão tá baixa. – falou, sufocada, a mulher.
_ Tem o quê de lanche aqui? – perguntou o marido.
_ Não vendemos lanche, senhor – respondeu-lhe, pacientemente, o vendedor.
_ Meu Deus!! – gritou a mulher – Não vende água, nem lanche! Serve pra que esse lugar aqui?
_ Pra abastecer os carros, minha senhora. E vendemos água sim.
_ Vendem. Vendem tanto que não vejo uma garrafa.
_ Exatamente.Vendemos tudo ontem.
_ Sei.

Uma senhora, com toquinha branca, ar de cozinheira, apareceu de repente, vinda pela porta dos fundos. Disse que estavam saindo alguns lanches. O marido olhou para o vendedor (e este fingiu não ver, nem escutar a senhora de toquinha), e pediu um de carne.

_ Temos não – disse a senhora.
_ Tem de quê? – indagou o marido.
_ Só fazemos misto-quente.

O marido olhou para a mulher.

_ Traz, pelo amor de Deus. – suplicou a morta de fome e de sede, já se deixando cair numa cadeira perto do balcão.
_ Dois, por favor. – pediu o marido.

Comeram os lanches, beberam a tal “Fresh” e continuaram a viagem. Com aquele engarrafamento, seriam ainda mais ou menos umas oito horas de viagem pela frente, o marido calculava. A mulher entrou em pânico. A tal “Fresh” não refrescara nada. E o misto-quente não fora suficiente para fazer subir sua pressão. O marido, vendo o desespero da mulher, prometeu-lhe que iriam direto para uma churrascaria, assim que chegassem à próxima cidadezinha. Lá, comeriam carne à vontade e beberiam toda a água gelada que houvesse. A mulher tentou se controlar.

Três horas depois, chegaram a uma localidade. Até bonitinha. Mas nada de churrascaria. Nem restaurante. Nem padaria. Depois de rodar quase a cidade toda, com a mulher se dizendo “prestes a ter um troço a qualquer momento”, o marido avistou: “Pizzaria e Churrascaria”.

_ É aqui.

Estacionaram o carro. A mulher, com uma certa injeção de ânimo, ajeitou os cabelos, colocou o salto, entrou no estabelecimento e foi direto ao banheiro, enquanto o marido ficou fazendo os pedidos. Quando retornou, o marido ainda estava de pé.

_ Vamos pra outro lugar, aqui não tem churrasco – falou-lhe baixinho.
_ Não tem churrasco aqui? – esbravejou a mulher – Como???
_ Não, senhora. – respondeu-lhe calmamente a garçonete.
_ Mas na porta está escrito “Pizzaria e Churrascaria”.
_ É, mas não servimos carne não.
_ E servem o quê? Só pizza?
_ Também não.
_ Ah, que legal! Uma pizzaria e churrascaria que não vende carne nem pizza.
_ Servimos lanches em geral.
_ E quais os tipos?
_ Misto-quente.
_ E mais o quê?
_ Hoje só tá saindo misto-quente.

Diante do olhar fulminante da mulher, o marido tentou resolver.

_ A senhora pode me dizer onde servem carne aqui?
_ No restaurante.
_ E onde fica o restaurante?
_ O senhor vai prali, anda um pouco, vira praquele lado. Lá tem um restaurante que é churrascaria.

Foram andando até o local indicado. Não acharam restaurante, nem churrascaria. Pediram informação a um rapaz do moto táxi.

_ Moço, o senhor pode nos dizer onde tem uma churrascaria por aqui?
_ Rapaz! – o moço do moto táxi coçou a cabeça – Se eu disser ao senhor que todos os restaurantes daqui são churrascaria?
_ Sim?
_ É porque, veja bem... Churrascaria, churrascaria mesmo... – o moço coçou a cabeça novamente, e ficou em silêncio, olhando para o horizonte – o senhor deve tá falando “o da qual servem de rodízio”.

A mulher tentou explicar. Mas o marido cortou.

_ Tá, então me diga onde tem um restaurante bom por aqui.
_ Bom?
_ Sim, bom.
_ Bom, bom mesmo?
_ Isso, o melhor! Daqueles que servem todo tipo de carne.
_ Ah, por que não falou logo? O senhor vira aqui, anda prali, vai mais adiante. Sabe o Cabeção?

Não, eles não sabiam.

_ Então, ali no Cabeção. Vai ali que não tem erro. É a melhor churrascaria da cidade.
_ É longe? – perguntou a mulher.
_ Nada. Um pulinho.

A mulher respirou aliviada. Entraram no carro. Depois de muitos “pulinhos”, chegaram ao tal Cabeção. O marido sorridente.

_ Se não tiver carne aqui nessa churrascaria, não tem mais em lugar algum. Afinal, é a melhor da cidade.

A mulher concordou.

Estabelecimento simples, toalhinhas e vasinhos de flores em cima das mesas. A mulher achou o lugar simpático. Sentaram-se numa mesinha igualmente simpática, do lado de fora. Ninguém veio atender. O marido gesticulou. Veio uma senhora.

_ A senhora pode nos trazer o cardápio, por favor? – solicitou o marido.
_ Podem entrar, sirvam-se à vontade.

O casal se entreolhou. A senhora explicou:

_ É sélfisérvice!

“Ah! churrasco à vontade!” – pensaram, marido e mulher.

Entraram. Aguardaram, com impaciência quase indisfarçável, a senhora destampar as vasilhas, assadeiras, panelas ou, sabe-se lá que nome tinham aqueles recipientes de alumínio, enormes. Deliciavam-se só com o pensamento de ver aquilo tudo cheinho de costeletas assadas, fatias de picanha, cortes de maminha...

De repente, silêncio. A senhora acabara de destampar tudo.

_ As carnes estão onde? – perguntou o marido.
_ Hoje servimos carne não. Hoje é prato do dia.

Marido e mulher não ousaram nem se olhar. Cada um pegou seu prato, seu talher e se serviu de sarapatel, feijão e arroz. Seguiram para a mesa.

O marido nem perguntou o que a mulher queria beber. Foi logo pedindo refrigerante. Beberam o refrigerante. De vez em quando, a dona da “churrascaria” olhava e sorria para o casal. O casal devolvia o sorriso. Terminado o almoço, o marido pagou a conta.
A mulher seguiu para o carro.

_ Ainda falta muito? – ela perguntou.
_ Não, meu bem. Em mais ou menos cinco horas, chegaremos lá.

Cinco horas era uma eternidade.

_ Será que aqui vendem água? – a mulher se lembrou de sua sede.
_ Vai saber.
_ Veja lá, meu bem, por favor...

O marido voltou à churrascaria. Cinco minutos depois, entrou no carro. Nas mãos, duas garrafinhas cheias de água, e o melhor, geladinhas.

Os olhos da mulher brilharam.

_ Bem que o rapaz do moto táxi disse que aqui era a melhor churrascaria da cidade.

Agradeceu ao marido com um beijo. E os dois seguiram viagem, felizes da vida.






(Adriana Luz - 28 de junho de 2008)

Friday, July 11, 2008

O Coelho e a Flor

**Era um coelho.... sem destino...

Um belo dia... Apaixonou – se...

E tudo pareceu fazer sentido...

E seu destino pareceu ter realmente uma direção...

Mas eis que... de repente... não mais que de repente...

Alguém – um de seus melhores amigos – avisou-lhe...

_ Ei, você não pode fazer isso! Como pode um coelho se apaixonar por uma flor?

E aí que ele se tocou. Era mesmo um coelho. E ela – o objeto de seu amor – era não uma coelha, coisa normal entre os seus. Ela era uma flor.

Sim! Uma flor de verdade, com pétalas, caule e folhas...

Oh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Como poderia?

Ele apaixonado por uma flor?

O que seus amigos iriam dizer?

O que ele iria fazer?

E pior, mesmo que ele quisesse, como poderia um coelho relacionar –se com uma dessas criaturas pertencentes à flora???

Essas foram algumas das questões inquietantes que lhe chegavam à mente.

Tão inquietantes que passaram de questões a pontos. Pontos que, por serem tão confusos... e tão...digamos, terminantes... só poderiam ser... como diria sua professora de português: finais!.

Que triste isso.

Pontos finais...

O término de um amor... entre um coelho e uma flor...


(Adriana Luz – 06 de julho de 2008)**