Sunday, January 22, 2006

É melhor ser alegre que ser triste...

Minha mãe vive dizendo que é muito egoísmo de uma pessoa quando esta não compartilha seus sofrimentos com os que estão ao seu redor... Cresci ouvindo isso. Então, muitas vezes, na minha vida, apesar de eu não gostar de falar sobre meus problemas com ninguém, eu saía distribuindo meus chororôs por aí. Nao queria ser egoísta. Às vezes, passava horas ao telefone desaguando minhas dores... E chegava a me sentir satisfeita quando percebia que alguém estava com pena de mim. Nossa! Que coisa (hoje enxergo o absurdo disso!).

Mas em contrapartida, eu também sofria as dores dos outros. Sim!!! Como não? Essa era a regra. Eu chorava primeiro, o outro chorava em seguida. Então, quando o outro era quem chorava antes, eu tinha de chorar igualmente. E eu sentia tudo o que o outro sentia, os mesmos enjôos, as mesmas dores nas costas, os mesmos apertos no coração, as mesmas preocupações com filhos adolescentes ( e meus filhos ainda nem tinham chegado à segunda infância...), a mesma fadiga. E ficava assim, durante dias, remoendo aqueles problemas que não eram meus, chegava a quase ficar de cama (juro!) quando não conseguia ajudar.

Dias e dias remoendo aquilo, contando para os parentes, amigos próximos, espalhando tristeza por aí. Mas eu pensava que se não fosse desta forma, seria muito egoísmo meu. Eu tinha de sofrer junto com meu semelhante. E o meu semelhante também tinha de sofrer comigo. Era uma troca.Até que, um dia, eu percebi que minha vida estava sendo um eterno sofrer. Mesmo quando eu estava feliz, por qualquer motivo besta, eu achava um jeito de acabar com aquela alegria. Claro!! Como eu podia estar feliz se um parente ou amigo estava com dor nas costas, com problemas conjugais, com dor de dente, se havia perdido suas finanças, se o filho havia batido com o carro por causa de bebedeira?? Como???????? Meu Deus, isso era muito egoísmo! Então, eu brigava com marido, com filhos, com o papagaio. Sim, minha vida não podia ser perfeita.


E não era. Tinha seus altos e baixos. Mas eu fazia questão de valorizar mais os baixos. E os que viviam comigo também eram assim. Senão, como explicar tantas noites de sono perdidas por causa de problemas alheios ou supervalorização de pequenos problemas nossos? Bem, isso durante um certo tempo. De repente, eu percebi que eu era egoísta sim. E que estaria muito melhor se assim o fosse, obrigada. E resolvi fechar meus ouvidos e minha boca para a tristeza. Nunca mais falar sobre nem uma dor de dente minha, de meus filhos ou quem quer que fosse, a ninguém. E nunca mais parar para ouvir problemas de ninguém.

Está com problema? Sinto muito. Posso fazer nada. O máximo que posso fazer é rezar por você. Ou então, convidá-lo para sair e festejar. Dançar, ver gente bonita, passear, viajar, sei lá. Mas ficar parada ouvindo e me solidarizando, nem pensar.

Sinto muito, repito. Ou melhor, sinto nada.

Sim, isso é uma Ode ao egoísmo, como diria minha mãe. Mas eu tenho ficado melhor assim. Não falo de meus problemas a ninguém. E tenho muitos, muitos mesmo. Mas você não vai receber um telefonema meu, nem uma visita por causa disso.

Você vai receber um telefonema meu sim, mas para lhe contar minhas conquistas ao longo do ano, as conquistas de outras pessoas, para falar sobre a beleza de Salvador, sobre o Carnaval, sobre livros, filmes, a saúde e a beleza de meus filhos (que são mesmo os mais lindos, educados, e perfeitos do mundo! Não posso perder a chance de enfatizar isso! rs).


E quanto às minhas visitas, bem, se eu realmente o visitar, o que acho quase improvável, eu avisarei com, no mínimo, três dias de antecedência. E perguntarei se não quer que eu leve um vinhozinho ou algum petisco. Odeio quem chega sem avisar. Jamais cobrarei sua solidariedade. Prometo. Mas prometo não a você, prometo a mim mesma, que é a quem realmente devo satisfação.

Bom, se minha mãe ler esse texto, ela vai dizer: “é.. você é realmente egoísta e isso me deixa muito triste.” E eu já respondo de antemão: “fique triste não,mãe, seja feliz, porque eu estou bem, mesmo quando não estou.”

E esse texto é sim uma Ode, mas uma Ode à alegria. Salut!


(Adriana – 22 de janeiro de 2006 - Ao som de Lollipop, com a banda Bem Kweller)

2 comments:

Vanessa Gomes said...

"...Alegria é a melhor
coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza..."

Adoro seus textos!!! Beijinhos, querida!

Gui said...

Muito bom !!!
=)
Você conseguiu transmitir para o monitor o que penso sobre esse assunto. E este título é, sem dúvida, adequadíssimo. Ouvi essa frase de Maria Betânia (pela tela de cinema) e tem tudo a ver. Nossa vida é vivida conforme olhamos para ela. Quer ser feliz? Então abra os olhos da felicidade!
Muito bom!
Sou seu fã.
;)
Bjoca