Monday, August 28, 2006

Margarida é nome de Flor...





Hoje ganhei um presente. Na verdade, ganho presente todos os dias. Sou uma mulher de fé, acredito em tudo o que minha mãe me ensinou. E trago comigo, todas as crenças, as rezas, as tradições...
Às vezes, me pego querendo quebrar alguns ensinamentos. Talvez porque eles me prendam a coisas que me parecem questionáveis... Mas, mesmo questionando, há coisas que não há como perder. E, sinceramente? Nem quero que se percam de mim.

E uma dessas coisas é exatamente a minha fé em Deus e minha devoção por Maria, a mãe de Jesus. Sim, sou devota de Nossa Senhora. Acho que uma devota meio “capenga”, porque não chego nem um milímetro à altura da devoção que minha mãe tem pela Santa. Mas me considero devota. E protegida por Ela.
E já tive várias provas disso. Em outro momento, talvez eu até escreva algo a respeito.

Mas, no momento, só quero agradecer a Deus, à Maria, aos céus, pelo presente que ganhei hoje em sala de aula. Um presente com nome de Margarida. Com nome de flor! E eu que gosto tanto de flores... Essa veio perfumar minha aula e deixar seu perfume impregnado nas mentes dos meus alunos... E minha!

Uma mulher.

Uma mulher talvez como outra qualquer...

Daquelas que sofreram por amor, que sofreram pela perda de entes queridos, pela perda de sua pátria... E pior, sem nenhuma explicação.

Uma mulher, talvez como qualquer outra...

Que se casou, que teve filhos...

Uma mulher, talvez como qualquer outra...

Que vive apenas o dia de hoje... Não pensa no futuro, porque o futuro virá, de qualquer forma, talvez também sem explicação. E ela o viverá, porque aprendeu a viver assim, recebendo o que lhe vem... Como presente, ou como dor... Ela apenas vive...

Uma mulher, talvez como qualquer outra...

Que poderia estar calada, ou vivendo a sorte que muitas mulheres de sua terra não tiveram...


Mas Guidha não é qualquer mulher...

Ela é a tradução e a prova de que não só podemos transformar nossas dores em arte, tristezas em cores... mas especialmente transformar o mal que nos fizeram em atos concretos de solidariedade e compaixão...

E foi essa vida que ela veio mostrar hoje aos meus alunos em sala de aula. Uma aula que também poderia ser como outra qualquer, em que eu talvez estivesse no centro das atenções e meus alunos ali, tentando aprender comigo, enquanto eu, na verdade, é que aprendo todo os dias com eles... Tanto isso é verdade que, hoje, aprendi com minha aluna Alice, do 1º ano 2, e com o grupo do qual ela fazia parte que, realmente, a verdadeira escola é aquela que traz à vida.

E qual seria a aula de hoje? Apresentações das equipes relacionando o livro “Equador” com o filme “O Jardineiro Fiel”. Antes de começar a aula, uma das meninas do grupo de Alice, toda preocupada, veio me dizer que estava com medo porque achava que o seu grupo iria fugir do tema. E me perguntou se a “palestra” poderia acontecer mesmo assim... Eu falei que sim, mesmo porque eu havia deixado livre a forma de apresentação...

E eis que me “aparece a margarida”. E isso não é metáfora para marchinha de carnaval. O nome da palestrante era Margarida mesmo (e ela se apresentou como Guidha). Uma mulher de trinta, quarenta, sei lá quantos anos (e isso não vem ao caso)... Uma artista plástica que viveu em Angola, os horrores da guerra e que, por causa dela (da guerra), teve de fugir de seu país. Uma mulher que, aos quinze anos, deixou pai, mãe, irmãos, amigos, namorado (Sim, gente, eu tinha namorado! – ela disse com os olhos cheio de lágrimas) e foi para os Estados Unidos para passar um mês. Mas, com a guerra “estourada”, ficou 520 dias (contados um a um – como ela disse), num país estranho, com gente estranha, sem notícia da família, dos amigos, sem explicação alguma... E que passados os mais de 500 dias, teve de se refugiar com a família em outro país. E assim, atravessou os mares clandestinamente... E aqui “aportou”...

Hoje, em sala, apareceu-nos assim, de forma tímida e sorriso doce... Em suas mãos, uma boneca antiga (a única coisa que ela conseguira salvar de sua infância em Angola) e algumas folhas, que ela segurava com as mãos trêmulas. Em seus lábios, uma voz calma, cheia de sensibilidade... E em seus olhos, lágrimas...


E sobre o que ela falava? Guerras, destruição, abandono, abuso de poder, exploração, sangue, descaso...meninos sem pátria, sem ajuda, sem destino... Mas falava também sobre força de vontade, espírito de luta, garra, solidariedade, fraternidade... falava de sua gente, das mulheres lindas de seu país, do sorriso estampado nos lábios de seu povo... Povo negro, tão diferente (de sua aparência branca) e tão igual, em sua essência “colorida”...

Mostrou-nos música, mostrou-nos fotos, mostrou-nos poesia... E nos fez viajar com ela até seu país de origem... Angola de sofrimentos, mas de saudade para essa mulher que, quase ao acaso, chegou até a Bahia...

Quando a palestra terminou, eu não tinha palavras... O grupo ainda queria “algo” para relacionar com o livro. E eu disse que não precisava. Mesmo assim, ainda colocaram um clipe (montado pelos integrantes da equipe), com músicas, imagens e palavras de sofrimento, mas também de esperança...
O clipe foi lindo. Mas não precisava. O grupo que pensou não ter relacionado nada com nada, simplesmente, deu-nos uma aula de vida. E tudo estava ali, completamente relacionado ao que eu pedira. Ou melhor, com a extrapolação necessária a quem tem asas, pensamentos e imaginação próprias.

Estou comovida com o trabalho da equipe. Com o trabalho de Guidha. E com o meu trabalho. Isso sim, pra mim, é Educação. E que bom que a cada dia aprendo com minha profissão, fazendo-me mais consciente de meu papel, aquele que eu tenho de “interpretar”, aquele que eu tenho de viver, e aquele que eu tenho de usar como forma de denúncia, explicação, carinho, entretenimento, ou homenagem. E aqui fica a minha para essa artista plástica, mãe e cidadã do mundo, uma flor chamada Margarida.

Em suas próprias palavras:

"O papel foi como uma trilha para descobertas, para voltas, reviravoltas, para idas e vindas,
às vezes sem sentido... Foi trazendo as imagens que se perderam nas gargantas apertadas, nas esperas angustiantes, que descobri como tenho mãos amigas, abraços queridos, sorrisos de paz a me amparar...”

Obrigada, Guidha, pela flor que deu hoje a todos nós. Guardaremos com muito carinho...

(Adriana Luz – 28 de agosto de 2006)

5 comments:

Guidha Capelo said...

Que posso eu dizer agora...
Só que a cada dia que passa ouço os tambores de lá me chamando...
Sei que é a minha missão... não vou fugir disso...

Agora só posso te dizer que mais do que nunca meu convite está de pé!
Eu já havia tentado organizar as etapas mas tive dificuldade... Só o nome me veio em sonho:

"CARTAS DE MÃOS QUE HABITAM
no passado e no futuro" mas era para um enfoque um pouquinho diferente... mas vamos lá!
Vamos conversar mais sobre isso!
Uma vez conversando com uma amiga (atriz) a Denise Del Vecchio sobre essa minha idéia, ela me disse que viraria facil um filme... quem sabe?
No momento quero muito mostrar minha história (e olha que aquilo ali foi só um resumo muito enxuto que fiz, devido ao tempo)principalmente para os jovens, que serão os homens de nosso (vosso) país...
O que eu mais quero é escrever esse livro com alguém que domine o portugues e goste de escrever... assim seria mais tranquilo e vibrante!
E acho que já encontrei!
Tens coragem MESMO???
Beijos querida e muito obrigada por seu carinho!

Guidha Capelo said...

Que posso eu dizer agora...
Só que a cada dia que passa ouço os tambores de lá me chamando...
Sei que é a minha missão... não vou fugir disso...

Agora só posso te dizer que mais do que nunca meu convite está de pé!
Eu já havia tentado organizar as etapas mas tive dificuldade... Só o nome me veio em sonho:

"CARTAS DE MÃOS QUE HABITAM
no passado e no futuro"

mas era para um enfoque um pouquinho diferente... mas vamos lá!
Vamos conversar mais sobre isso!
Uma vez conversando com uma amiga (atriz) a Denise Del Vecchio sobre essa minha idéia, ela me disse que viraria facil um filme... quem sabe?
Mas o que eu mais quero mesmo é escrever esse livro com alguém que domine o portugues e goste de escrever... assim seria mais tranquilo e vibrante!
E acho que já encontrei!
Tens coragem MESMO???
Lembrando que hoje foi um resuma para 15 minutos, a história é bem maior, muito mais rica, vais ver!

Beijos querida e muito obrigada por seu carinho!

Isabela said...

Adriana, cheguei ao seu cantinho por intermédio da própria Guidha, que emocionada, veio me mostrar as palavrinhas doces que a presenteou...mal sabendo..., que é ela quem nos presenteia, ne...Sou amiga da Guidha, há cerca de 01 ano, na verdade somos irmãs, nunca nos vimos pessoalmente, apenas em alma, temos fios interligados de amor e luz, uma amizade virtual - sim, mas muito mais verdadeira que outras tantas que convivo em meu dia-a-dia, isto tudo, porque Guidha é essência, flor - assim como em seu nome.
Fiquei aqui, imaginando ela a frente da sala, conversando, falando de sua vida...Sempre me emociono, e vc - Cláudia, soube como ninguém falar sobre esta artista da vida.Obrigada por homenagear esta que nos é presente de Deus.
Bjm, Bel.

J said...

como se diz por aí...tem gente que vive a vida...e tem gente que apenas passa por ela...

se todos conseguissem viver assim

Lilian =) ex aluna de Daivison said...

Adrianaa
lindo o texto!!
a paestra dela foi realmente maravilhosa!
tanto lá na sala quanto no saral ^^
bjuh fessora!
LINDO O BLOG TB =)